A realidade está noutro lugar — Mark Fisher

24 de setembro, 2003

A periferia é onde o futuro revela a si mesmo.

J. G. Balllard

Também acredito que Wire e os Banshees contam como parte de Londres uma vez que Watford e Bromley fazem parte da órbita de Londres.

Uma parte de acolher o futuro é sempre rejeitar o passado; de fato, isso se aplica às pessoas que se mudaram das “províncias” para o “centro” também. Eu fiquei um pouco surpreso quando Luka argumentou que as pessoas das províncias iriam sempre querer defender as províncias; certamente isso pode funcionar pela maneira inversa também, você pode estar em ânsia demasiada para sacudir a poeira da cidade pequena dos seus pés.

Ballard é um dos poucos poetas dos subúrbios. A postura mais típica é a de desprezá-los enquanto não-zonas, locais de descanso (o termo “cidade-dormitório” representando perfeitamente isso) cuja amenabilidade medíocre e etérea equivale a uma monotonia existencial incurável, uma inautenticidade fundamental. Isto, na verdade, teria representado muito bem meu próprio desconforto quanto aos subúrbios quando eu crescia num deles: eu nunca sentia que ele era real. Para nós, suburbanos sonhadores, o único Lugar Real no país — paradoxalmente por causa de sua hipermidiatização — era Londres. (E isso dá um sentido levemente diferente à afirmação de Luka de que “Londres é a única cidade real na Inglaterra.”) E a América, a América era ainda mais Real. Nós, que vivíamos nos subúrbios de cidadezinhas já anônimas e medíocres por si mesmas, éramos exilados do Real da cidade: fantasmas sem substância, resignados ao nosso status de não-seres.

A Cidade não é o único Real. O Rural — com sua poderosa e profunda indiferença —passado frente ao efêmero, com seu Tempo duradouro, no qual “as coisas permanecem as mesmas, mesmo com o passar das gerações” (Hardy) — ele também tem a pretensão de ser a realidade fundamental. Tal qual a cidade, é a estetização do rural, sua capacidade de ser traduzido em Arte, que dá ao campo sua impressão de real.

O subúrbio é o “nem-um-nem-outro”, as zonas de amortecimento entre esses dois Reais.

Quando, há dois anos atrás (fugindo da desilusão de Londres, numa fome fotossintética pelo verde, numa curva de volta à minha infância?), me mudei para Broomley, eu estava conscientemente fugindo do Real. Mas, no meu retorno (ou quase isso), o suburbano me pareceu, como Ballard insiste incansavelmente, mais surreal do que irreal. Ruas que parecem colagens tornadas reais, cheias de incongruências estranhas que só poderiam aparentar como naturais na quietude sedante do subúrbio. Blocos de apartamentos que se parecem com casarões de veraneio, olhando para uma estrada movimentada no lugar do oceano, como se tivessem sido lá descartadas por um daqueles coletores cósmicos de Dr. Who que tiram formas de vida de seu contexto e as reúnem como exposições carnavalescas. Gramados tão bem cuidados que a Rainha de Copas de Lewis Carrol poderia jogar croquet neles.

Tudo isso é tão ex-cêntrico…

Sinto-me tentado a cometer um deslize e cair numa psicanálise de profundeza lyncheana aqui (fraqueza da qual o próprio Ballard sofre frequentemente): sair do idílio desfocado e irônico do plano geral para o implacável e medonho detalhamento do close-up, para então procurar pelo Id por debaixo do Superego suburbano. Mais interessante seria reconhecer que a superfície  é paranóica, que Nada reside por debaixo…

Para Ballard, nossa suposição de que as cidades são o futuro é uma pendência do modernismo do século XIX, uma noção tão curiosa e fofamente fora de moda como as profecias de Júlio Verne. Com sua densidade concentracional, suas ruas lotadas, seu crescimento não-planejado, Londres é uma rélica vitoriana transportada a cavalo. Para a alegria de Ballard, e o horror de Ian Sinclair, o futuro não é a cidade, mas o subúrbio. Diferentemente dos velhos centros populacionais — sejam as antigas “carapaças romanas” ou os montes de dejeto relativamente recentes da industrialização — os subúrbios foram construídos com o carro em mente. Eles portanto dão margem a progressos os quais Sinclair abomina, mas pelos quais não consegue impedir sua fascinação: centros comerciais livres de fantasmas, fora da cidade, e shopping centers, não-lugares acessíveis apenas por carro, zonas cuja anti-localidade calculada e franqueada as faz aparentarem ser nada mais nada menos que aeroportos.

As cidades recedem como fuligem em 19° na higiene feita sob medida e radiante de Bluewater, Kent.

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