Uma espécie de Alasca — Mark Fisher

25 de setembro, 2003

Estou pensando em neve.

Não apenas por causa da encantadora pintura de Atsuishi Fukui na capa.

Mal precisei ouvir duas vezes. Menos até. A velha chama – mudada, mas não ao ponto de ser irreconhecível – me pegou de novo.

Estou queimando

Agora já perdi a conta de quantas vezes sucumbi (Apesar de que não podem ter sido muitas vezes. Sei que, até então, não pode ser mais do que quatro vezes; mas já estou naquele tempo eônico em que você entra quando encontra algo amado. A vida agora é inconcebível sem isso, então eu imagino que tal coisa sempre esteve lá). Você continua dando play. Você se perde, facilmente, fica sem saber mais em que faixa está; nenhuma batida para marcar o tempo, nem versos ou refrões, apenas estribilhos vocais insistentemente hesitantes, sem serem apressados pelas urgências adrenais do rock, apenas palavras que são onírico-desconexas, onírico-crípticas, onírico-vívidas.

No deserto de gelo, a mais leve perturbação produz afeto massivo….

Relembre-se da vacilante quietude com a qual se inicia Spirit of Eden do Talk Talk; o brilho do feedback de “How Soon is Now.” Imagine-os desnudados até mesmo da atenuada extravasão de rock & roll que lhes é permitida; imagine seu prolongamento aparentemente infinito..

Blemish, de Sylvian, espantosamente, é verdadeiramente tão hipnotizante como Marcello e – o ainda ausente – Penman dizem sê-lo. Espantoso não por eu desconfiar da avaliação deles – muito pelo contrário – mas porque eu temia que sua magia com as palavras havia conjurando um fantasma/fantasia ao qual nenhuma outra música poderia se equivaler.

Não há nada que se pareça muito com Blemish: nada no catálogo prévio de Sylvian, nada em outras lugares. Descreveram-no como música “ambient vocal“, uma descrição suficientemente precisa, tecnicamente, mas um tanto quanto anêmica, e não é sedutora o suficiente. No lugar de ser caoticamente sem foco, Blemish tem um aprumo glacial, uma tensão quase absoluta.

E quase tudo foi feito com guitarra. Imagine só!

Os arranhados de Derek Bailey. As falhaisagens de Christian Fennesz. E em maioria, as águas turbulentas, a paragem irregular do instrumental de Sylvian.

Subtendências. “The Good Son”, antes de Sylvian começar a cantar. Bailey dando seus arranhões na guitarra feito uma caixa de música enlouquecida.

E então a voz….

Não tente achar algum sentido nisso

Ela recai sobre mim, em meu rosto, e minha pulsação está tão lenta agora, estou de pouco em pouco delirante, quase indistinguível da paisagem, e é isso que eu amo, aqui fora, no branco frio, as chamas são tão brilhantes. E ela recai sobre mim, até que não reste muito de mim. Ela recai sobre mim, e eu caio no sono, ou mais profundamente…

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